
Para se apaixonar por um amor imperfeito
O título do filme assusta, remete a qualquer coisa melodramática e excessivamente piegas, se é que isso é possível. Mas, em se tratando de O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil, EUA/ China, 2006), todos os preconceitos devem ser deixados de lado. O belíssimo retrato de um amor, pintado numa longínqua parte perdida na imensidão chinesa é inexorável. O filme levou mais de cinco anos para ser levado às telas, graças aos esforços de Edward Norton e dois produtores empenhados em adaptar o romance homônimo de W. Somerset Maugham.
A começar pelas interpretações magistrais de Naomi Watts e Norton, como o casal Kitty e Walter Fane, tudo é mais do que apropriado no filme. A história começa quando o tímido Dr. Fane se encanta com a beleza blasé de Kitty na Inglaterra. Kitty só aceita o casamento porque a mãe não perde a chance de dizer que ela é um fardo para o pai. Então o casal Fane segue para a China, onde Walter trabalha como bacteriologista. Kitty, contudo, considera a sociedade chinesa degradante, entedia-se com a vida pacata. Walter trabalha muito, é objetivo demais e, como ele mesmo diz, só fala quando julga ser realmente necessário.
Essas personalidades tão distintas logo chegam a um ponto em que não é possível conviver amigavelmente. Kitty cai na sedução óbvia de Charlie Townsend, com quem passa a manter um caso. Walter, sempre contido, cuja expressão geralmente não revela nem metade do que ele realmente sente, apresenta uma faceta fria e vingativa. Aquele amor absurdamente altruísta é maculado pela amargura de Walter que resolve castigar a esposa, coagindo-a a ir para uma vila com uma epidemia de cólera, onde ele resolveu morar voluntariamente, para estudar a epidemia.
No caos da vila à beira da morte, Kitty e Walter se redescobrem. Inicialmente, a hostilidade impera. Reprimindo o amor que sente por Kitty, Dr. Fane faz com que ela veja o marido como ele realmente é, sem a necessidade de agradá-la constantemente. E Kitty se surpreende com o que vê. Ela passa a se interessar pelo trabalho do marido. Ela resolve se engajar nos trabalhos voluntários. Ela muda muito, distancia-se da jovem mimada que não queria casar com qualquer um.
Walter não quer ceder, enquanto Kitty se mostra absolutamente cativada. Então, numa cena belíssima, ambos se entregam à paixão. A cena funciona como contraponto a uma das primeiras noites do casal, quando Walter, todo desengonçado, teve de ser conduzido por Kitty. Depois, contudo, Walter consegue demonstrar de forma magnífica o quanto ama a esposa. Uma cena de amor memorável.
Aliás, é uma pena que o longa de John Curran tenha passado tão despercebido, exceto por duas indicações ao Independent Spirit Awards (ator e roteiro) e pelo Globo de Ouro de melhor trilha sonora. Prêmio merecido, por sinal. A canção francesa A la claire fontaine rende um dos momentos mais lindos do filme, uma escolha muito bem feita. As locações na China também são um espetáculo visual. O Despertar da Paixão consegue ser uma história de amor atemporal e extremamente cativante. Até você que não costuma chorar fácil pode preparar o lencinho. É de se apaixonar.

Cinema com sotaque gaúcho
Jorge Furtado conquistou o público mais antenado com o curta Ilha das Flores, ganhou mais admiradores ainda com as fotocópias e peripécias de Lázaro Ramos em O Homem que Copiava, mas é com Saneamento Básico, O Filme (Brasil, 2007), que o diretor se mostra na melhor forma. A aula de cinema – gaúcho – do cineasta é simplesmente uma delícia. É fato que filmes sobre fazer cinema não são novidade, mas o filme de Furtado não parece estar preocupado com isso. É sublime em suas próprias despretensões.
O divertido roteiro conta a história de Marina, moradora de uma cidadezinha no interior no Rio Grande do Sul, que pretende convencer a prefeitura a construir uma fossa para acabar com o mau cheiro na cidade. Porém, não há verba disponível para tal empreitada e uma funcionária da prefeitura sugere que Marina faça um vídeo para poder pôr as mãos em 10 mil reais do governo federal, fruto de um projeto de incentivo ao audiovisual em cidades de menos de 20 mil habitantes. Assim, com uma pequena parcela do dinheiro ela faria o vídeo e o restante seria destinado à fossa.
Marina logo adere à idéia, mas precisa da ajuda do marido, da irmã e do cunhado para dar corpo ao projeto. Eis que a trupe começa a improvisar, já arrancando risos da platéia tentando compreender o significado da palavra ficção. Para quem gosta de cinema – de fazer – o filme soa ainda mais engraçado. Mesmo passando por lugares-comuns como crises de criatividade na elaboração do roteiro, Saneamento é uma comédia das boas. Esse mote garante uma ironia risível: há verba disponível para um vídeo, mas não há para saneamento básico, uma necessidade da população. E como diz a funcionária da prefeitura: se o vídeo não for feito, o dinheiro volta para o governo federal, não podemos deixar que isso aconteça.
Mas as cenas das filmagens são realmente as melhores do filme. Ver Camila Pitanga, Bruno Garcia e Wagner Moura interpretando não-atores é de chorar de rir. Com elenco estrelado, Saneamento se revela um filme de Fernanda Torres. A atriz consegue dar um tom ingênuo à Marina, tornando plausíveis todas as descobertas da personagem, desde o significado de ficção e quimera, à necessidade de montar as cenas do filme. A forma como Marina se deixa levar pelo cinema é muito interessante. Como ela, paulatinamente, repensa a hierarquia de prioridades tanto da fossa quanto do vídeo. Lázaro Ramos também dá uma ótima contribuição ao elenco, como o montador do curta.
Se, no princípio, toda vez que contabilizava algum gasto com o vídeo, Marina logo convertia o valor em sacos de cimento ou tijolos, quando ela se emociona com uma música que o diretor insiste em incluir no filme, ela simplesmente se deixa levar. Além disso, a cena na qual o personagem de Wagner Moura se despede da moto é uma doce homenagem ao cinema. Cheio de pequenas surpresas, Saneamento Básico garante momentos extremamente divertidos, mas com um humor refinado – exceto com a história de uma micose. Mas sem deixar de fazer singelas homenagens à sétima arte, algo que, no fim das contas, não é tão despretensioso assim.

Muitos filmes tratam do drama de pessoas à beira da morte. De um modo geral, recaem sobre clichês melodramáticos. Artificializam a beleza das coisas e tentando forçar uma emoção que deveria fluir espontaneamente. Não é o caso de Minha vida sem mim (My Life Without Me, Canadá/Espanha, 2003).
O filme retrata as impressões de sua protagonista, Ann (Sarah Polley) diante da proximidade da morte. Leve em consideração que ela tem apenas 23 anos e descobre um câncer em estado terminal. É uma jovem mãe de duas garotinhas, tem um marido apaixonado, uma mãe amargurada, um pai preso há anos e uma vida sufocante, que ela só repensa quando se depara com o fim. Ann engravidou muito jovem, do primeiro homem e único homem de sua vida.
Logo ela começa a querer provar sensações, experimentar mudanças simples, como colocar unhas postiças, mas que a deixam realizada, talvez por ter a sensação de que aquele momento é único. Assim, ela também deseja fazer com que outro homem se apaixone por ela, para que ela tenha a oportunidade de fazer amor com outro que não o seu marido.
Começando pela escolha de não contar à família que está doente, Ann toma uma série de decisões que revelam sua falta de maturidade, mas que são compreensíveis levando-se em conta seu desejo de aproveitar o tempo que ainda lhe resta. É isso que a leva a se envolver com Lee (Mark Ruffalo) e, ainda, tentar arranjar uma mulher para Don (Scott Speedman), que caia nas graças de suas filhas.
Ela começa a apreciar as pequenas coisas – o inevitável clichê – de forma comovente. Sua tentativa de se centrar no que realmente importa leva a uma interessante constatação: ela ouve com desdém a cabeleireira que só se importa com tranças, ela observa melancolicamente sua colega de trabalho obcecada pela magreza e pela contagem de calorias. Mas mais interessante é Ann percebendo que as coisas que ela sempre quis comprar já não fazem mais diferença, fato que as pessoas parecem omitir na sociedade atual.
Interpretada com delicadeza por Sarah Polley, Ann é uma personagem bem construída e interessante. Ela provoca uma intensa vontade de aproveitar ao máximo a vida, antes que seja tarde. Desconheço o histórico da diretora Isabel Coixet, mas posso entender o porquê de Pedro Almodóvar ter sido um dos produtores do filme. Garanto, também, que ao longo dos 106 minutos de filme, você certamente entenderá.

O humor das pessoas e seu estado de espírito refletem diretamente na forma como elas encaram o mundo. Porque uma mulher na TPM maldiz o mundo, se o mundo continua o mesmo de quando ela está na fase cor-de-rosa do mês? A resposta é simples. Talvez você nunca tenha pensado nisso, mas Woody Allen pensou. Seu mais novo brinde aos cinéfilos saudosos de sua fase de ouro é Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, EUA, 2004).
Não é uma comédia, tampouco uma tragédia, mas sim a vida. Woody Allen consegue provar que comédia e tragédia não faces opostas de uma moeda, mas apenas uma forma diferente de compreender o mundo. Essa é a discussão de quatro pessoas num bar nova-iorquino, que, partindo da premissa de uma mulher chegando sem ser convidada a um jantar, desenvolvem duas tramas paralelas, uma sob a ótica da comédia e outra da tragédia.
A mulher é Melinda (Radha Mitchell), uma divorciada procurando esquecer o passado doloroso. Na parte dramática, Melinda passa uns tempos na casa de uma amiga de longa data, Laurel (Chloë Sevigny), cujo casamento com um ator fracassado está
Assim ele fere Laurel, que tão egoísta quanto o marido, quer mais emoções que as proporcionadas pelo seu mundinho consumista. As conseqüências disso também serão trágicas para os personagens. Melinda conhece o músico Ellis (Chiwetel Ejiofor), outro personagem cheio de anseios e que vê em Laurel o reflexo dessa busca. As relações são complexas, os personagens são problemáticos e não parecem encontrar soluções para suas dúvidas.
Na parte cômica, os personagens também são cheios de dúvidas, problemas conjugais, mas isso não parece ser o fim do mundo. Hobie (Will Ferrell personificando o estereótipo de Woody Allen) garante os momentos mais divertidos do filme, com suas tiradas impagáveis. Ele, um ator fracassado, como Lee, tenta ajudar a esposa diretora de cinema, Susan (Amanda Peet) a angariar fundos para produção de um filme. Ela não tem mais interesse pelo marido, e ele logo se apaixona por Melinda, que na fase alto-astral, também se envolve com outro homem.
Ambas as partes, se narradas sem adjetivos que intensifiquem as emoções dos personagens, encerram praticamente a mesma história. Ambientadas na Nova York querida de Allen, elas contam com elenco diferente para não confundir o espectador, já que ao longo da projeção ele vai percebendo que a linha divisora do drama e da comédia é muito tênue e às vezes inexiste. Além da ótima trilha sonora, jazz para a comédia, como de praxe nos filmes de Allen, Brahms e Stravinsky para o drama, garantindo uma atmosfera mais carregada, o filme tem a direção precisa de Allen. A fotografia também tem variações, sendo mais escura na parte dramática.
O roteiro é um espetáculo à parte. Tem piadas muito refinadas, como que saídas da melhor fase de Allen. O elenco também garante boas interpretações, especialmente Mitchell e Farrell. Mas, sem dúvida, o grande fascínio que o filme exerce no espectador reside na forma deliciosa com que Allen trata o drama e comédia, que mesmo sendo separados em duas partes, tem elementos de um
Adivinhe só que cidade é essa? Antes e depois do congelamento.
Tenho muitas reservas quanto ao filmes catástrofe. Já fiz, inclusive, uma receita desse tipo de filme. Acredito que eles são repletos de clichês, como os mocinhos especialistas em algo pitoresco, que em breve salvarão o mundo. O cúmulo disso é em Armageddon, em que o personagem de Bruce Willis, que trabalha numa plataforma de petróleo é o grande herói.
A premissa do filme é boa. Uma catástrofe em decorrência do efeito estufa. Uma nova era glacial que, claro, devasta o hemisfério norte do planeta. Os maiores efeitos são mostrados na cidade de Los Angeles e Nova York. É óbvio. Onde mais filmes desastrosos se passam? A única boa sacada do roteiro é a leve alfinetada no posicionamento do governo Bush com relação ao meio ambiente, ao protocolo de Kyoto e à poluição. Além do hilário perdão da dívida externa dos países de terceiro mundo, que para abrirem as fronteiras aos refugiados dos países do norte, recebem o perdão.
Mas isso não é muito. De resto, o cara-de-bobinho Jake Gyllenhaal e a idéia absurda de queimar livros, ao invés de madeira, para alimentar uma fogueira, provocam risos. O filme não escapa aos chavões do gênero. No meio do sufoco, o personagem de Jake consegue conquistar Emmy Rossum. Quaid deixa o mundo de lado para salvar o filho (Gyllenhaal) e o espectador tem que engolir a dramática viagem do protagonista e os percalços pelos quais passa com seus colegas.
Dirigido por Roland Emmerich, de Godzilla, O Dia Depois de Amanhã, tem esse descrédito adicional devido ao diretor. Indicado inúmeras vezes ao Framboesa de Ouro, Emmerich não constrói uma boa trama, embora faça um filme não tão ruim quanto Godzilla, mas que, ainda assim, só mereça ser visto pelos fãs do gênero ou por quem não crie expectativas para o filme. Uma terceira possibilidade é vê-lo na tevê, porque pagar locação por filme ruim é muito desagradável.

A execução ocorre logo no início do filme, os assassinos são dois jovens rapazes ricos, interessados em cometer o crime prefeito. Então, convidam a família do morto para um jantar servido em cima do baú onde o cadáver está. Brendon e Phillip contavam com as investigações do professor Rupert Cadell (James Stewart), que serviu de inspiração ao crime deles, mas não imaginaram as conseqüências da astúcia de Cadell.
A tensão é extremamente valorizada pela brilhante condução de Hitchcock. São oito tomadas, cada uma de dez minutos, mas editadas de tal forma que o filme aparenta não ter cortes, dando a impressão quase que de tempo real. A câmera subjetiva seguindo os personagens também aumenta a cumplicidade do espectador com a trama, como se ele fosse mais um convidado do jantar.
As atuações são boas, os diálogos são ótimos e o nervosismo aumenta a cada olhadela de Cadell para o baú, assim como sua inegável suspeita vai ficando mais transparente. E enquanto Brendan ostenta segurança, Phillip, à medida que o álcool lhe sobe à cabeça, vai perdendo o controle das ações e das palavras. O resultado é um desfecho à altura de um filme digno da assinatura de Alfred Hitchcock.
Pôster sueco de Cruzada
Todo mundo sabe que Ridley Scott, com seu Gladiador, catapultou o gênero épico. Foram muitas produções, embora a maioria deixasse a desejar. O exemplo mais recente é Alexandre, sem esquecer Tróia, que também merece essa menção desonrosa. Um dos grandes problemas desses épicos é a construção da história. A realidade é retratada até onde convém ao roteiro. A necessidade de elevar os protagonistas a mocinhos de primeira grandeza é outro empecilho terrível.
Em Cruzada (Kingdom of Heaven, EUA/Inglaterra/Espanha, 2005), esses problemas estão presentes, mas a forma como se colocam tem sua razão de ser e podem ser perdoados perante as qualidades que o filme apresenta. A história enfoca Balian de Ibelin (Orlando Bloom) e sua contribuição histórica após a Segunda e antes da Terceira Cruzada. O contexto é extremamente semelhante à atualidade. Se a Terra Santa não vivia em paz, não era por falta de diplomacia do rei cristão Balduíno IV (Edward Norton) e do sultão Saladino (Ghassan Massoud).
É importante ressaltar que Balian não conheceu o rei, mas a relação estabelecida não só entre eles, mas entre Balian e a imrã do rei, Sybilla ou Tiberias ficaria bastante comprometida caso não tivesse a origem na relação que eles mantinham com o fictício pai de Balian, o barão Godfrey de Ibelin (Liam Neeson). A impressão que se tem é a de que Balian é alguém predestinado a salvar o povo de Jerusalém. Por isso, o caráter incorruptível que ele constrói ao longo da projeção, passa a ser muito importante. Caso contrário, como explicar o fato de Balian negar o pedido do rei para se casar com a irmã deste? Se Balian e Sybilla se amavam, naturalmente seria esse o caminho que gostariam de tomar.
Mas Sybilla é casada com o antipático Guy de Lusignan e para poder ficar com Balian, Lusignan precisaria ser eliminado. Essa seria, inclusive, a melhor solução para todos, porque logo o rei leproso morreria e Sybilla ascenderia ao trono, preferencialmente ao lado de Balian. Só que Balian não quer que Lusignan seja assassinado, e aí está uma das maiores demonstrações de que seu caráter é realmente admirável. Depois de tentar encontrar o perdão e a paz em Jerusalém, Balian descobre quão longínquas essas coisas estão da Terra Santa e retoma valores não só cristãos, mas de outras religiões, para demonstrar que a compaixão e a paz podem, sim, pairar sobre a terra sagrada.
A decisão de Scott em escalar o astro
Em um dado momento, um muçulmano se indaga como Balian conseguira desempenhar seu nobre papel se não fosse abençoado por Deus. E o próprio Balian se pergunta qual fé é mais sagrada, cristã, judaica ou muçulmana, discussão extremamente pertinente até hoje. Um dos maiores méritos de Cruzada é não defender nenhum dos lados. Por conseqüência disso, o espectador não se sente induzido a tomar algum partido, ficando numa intrigante posição de observador que percebe virtudes e fraquezas em ambos os lados. Todos querem Jerusalém, todos têm motivos para isso, mas poucos sabem qual a melhor forma de não perder a Terra Santa.
Balian, Balduíno e Saladino parecem entender muito bem que a desgraça dos muçulmanos não traz a felicidade e paz para os católicos, muito pelo contrário. Eles percebem que a harmonia é o caminho da paz, assim como o respeito mútuo, valores válidos para hoje, mas muito desrespeitados pelos fundamentalistas, católicos, judeus ou muçulmanos. Ou também, os protestantes, preferencialmente americanos e republicanos, e por isso entenda-se George W. Bush e a sua “guerra santa”, pela “democracia” e pelos poços de petróleo, tão santa quanto as cruzadas, por riquezas e terras. Uma das maiores constatações do filme é a grande incompreensão entre as religiões e um mergulho irracional em palavras geralmente mal interpretadas, ao gosto de algum oportunista, que gera o fundamentalismo e muitos dos problemas que fazem com que a Terra Santa seja santa só no nome.
Drama histórico sobre amante de Carl Jung não mostra sua maior contribuição para a posteridade: a influência na psicanálise e no rompimento de Freud e Jung.
A história da primeira paciente tratada com o método da psicanálise pelo então jovem Carl Gustav Jung é algo que, por si só, desperta interesse. Ao se somar o fato de que Sabina Spielrein e um dos maiores discípulos de Sigmund Freud cultivaram uma relação que foi muito além do tratamento da moça, o enredo se torna fascinante. Assim se estabelece o mote de Jornada da Alma (Prendimi L’anima/The Soul Keeper, Itália/França/Inglaterra, 2003), lançamento nas locadoras.
Sabina, uma judia russa de 19 anos, é internada num hospital psiquiátrico na Suíça para tratar sua histeria. Logo Jung se interessa pelo caso e, aos poucos, penetra no universo lacônico da moça. Sabina passa a depender do médico e ele percebe que seus cuidados perpassam o interesse profissional. O tratamento é um sucesso, Sabina sai do hospital, mas a vontade de estar com Jung permanece. Ambos se deixam levar pela emoção e se entregam a uma paixão avassaladora. Mas Jung é casado, tem uma carreira muito promissora a zelar e é aconselhado pelo mestre Freud a abandonar Sabina. Ela regressa à Rússia e funda a primeira escola que aplica a psicanálise em crianças – a Creche Branca.
A história é narrada por um pesquisador e uma mulher interessada em conhecer mais a vida de Sabina e sua influência na psicanálise, que é inegável. O diretor Roberto Faenza levou 23 anos para reunir todo o material necessário para tecer sua trama, que infelizmente não funciona. Iain Glen convence como Jung, mas Emilia Fox, de O Pianista, certamente dá maior carga dramática à Sabina. O problema consiste na trama paralela, que narra o filme. Absolutamente dispensável, essa solução do diretor dá impressão de que o espectador passeia pela biografia de Sabina sem ter total acesso a ela. A brevidade com que alguns pontos são mencionados não faz sentido, já que o filme tem meros 89 minutos. Quando Sabina volta à Rússia, um tom documental, que inclui fotografia preta e branca e locução jornalística, faz o filme beirar o ridículo.
Faenza deveria ter explorado mais seus brilhantes personagens, principalmente no que diz respeito à recuperação de Sabina e à psicanálise, assim como deveria ter se aprofundado no difícil relacionamento do casal central, mas sem apelar para soluções fáceis e melodramáticas, como quando Jung pressente que algo ruim está acontecendo com a amada. Apesar das inúmeras falhas, o filme tem seus méritos. Ao terminar a projeção, a maior vontade do espectador é preencher as lacunas vazias da vida da protagonista. Mas a mais forte sensação é a de que uma figura histórica – e esquecida – como a de Sabina merece algo maior que Jornada da Alma.
Uma saída de mestre (The italian job, EUA, 2003) é um daqueles filmes de encher os olhos dos mais aficionados por ação. Tem quem o assista por Charlize Theron, Mark Wahlberg ou Edward Norton (quanto a esse último, meu caso). O filme conta o planejamento (e a execução) de um plano mirabolante sobre um roubo, envolvendo um mestre da informática, o divertido Napster (Seth Green), mini coopers que rendem cenas de ação muito boas, passando em lugares muito improváveis, fugindo do trânsito propositalmente caótico de Los Angeles. A dupla Theron e Wahlberg no papel de bandidos-mocinhos fez sucesso, a ponto de uma continuação do filme estar sendo preparada.
Quando vi o filme no cinema, sabia que era a refilmagem de Um golpe à italiana (The italian job, Inglaterra, 1969), com Michael Caine no papel principal. Tive o imenso prazer de assistir a esse filme no Telecine Classic – ambos os filmes estão em cartaz nos canais Telecine. O que eu não sabia era que a nova versão acabou com o delicioso espírito politicamente incorreto do original. Michael Caine, ao contrário de Wahlberg, faz o tipo ladrão sem escrúpulos, o que vai contra essa tendência hollywoodiana de bandidos bonzinhos.
Isso funciona com muitos outros personagens da quadrilha que almeja um certo carregamento de ouro. É engraçado constatar as diferenças com que, em ambos os filmes, as quadrilhas desenvolvem a pane nos sinais de trânsito, com e sem computadores. O cenário do original é Turim, na Itália, e os vilões – num filme em que os “mocinhos” não são nada “mocinhos” – são os mafiosos italianos, o que soa muito melhor que Edward Norton com um bigodinho ridículo numa briguinha de ladrões. Ele que, aliás, se viu obrigado pelo estúdio a participar do filme para cumprir o contrato, porque o projeto não é exatamente a cara do talentoso (e lindíssimo) Norton.
Mas o melhor de tudo é o final de Um golpe à italiana. Ao contrário de Charlize e Wahlberg, que comemoram romanticamente o sucesso do roubo, a trupe de Caine se vê encurralada, o ônibus no qual estão fugindo com o ouro fica pendurado num penhasco. Como não seria de bom tom mencionar o final aqui – apenas digo que a solução apontada por Caine é ótima – fica a minha recomendação para esse divertido e despretensioso filme, que prova um dos maiores chavões de todos: não se fazem mais filmes como antigamente...
No filme de Richard Linklater, o amor tenta se distanciar ao máximo da idealização, e ao invés de se tornar um retrato cruel, o resultado é um belíssimo romance.
Na era das superproduções, nas quais os personagens sempre são os mais belos e perfeitos, um filme que troca esses clichês superlativos por uma trama aparentemente simples, com personagens comuns, já tem seus méritos. É isso que sustenta a grandeza do lançamento
Os nove anos que separam Antes do Pôr-do-sol de seu antecessor, Antes do Amanhecer, mostram que a inexorabilidade do tempo atingiu não só os personagens, mas toda a equipe do filme. Celine e Jesse se conheceram no dia que provavelmente foi o mais marcante de suas vidas – fato que se comprova por Jesse ter escrito um livro sobre aquele dia e Celine se lembrar também com riqueza de detalhes. Além de desbravarem juntos a cidade de Viena, ao mesmo tempo eles mergulharam em si próprios, conhecendo novas facetas e conhecendo o amor romântico.
Após a efervescência da juventude, ambos sentem o peso do tempo e sabem que o amor não é tão simples e nem tão sublime quanto o dia em que se apaixonaram. Toda essa carga compõe os personagens no reencontro em Paris, que é o ponto em que o filme começa. Todas as peculiaridades de um momento como esse estão no filme, desde o constrangimento inicial, os olhares perturbadores, até a paixão voltando à tona.
Ethan Hawke (Jesse) e Julie Delpy (Celine) estão sublimes em seus papéis, com destaque para a magistral Julie. A dupla também escreveu o roteiro, que concorreu ao último Oscar, junto com o diretor Richard Linklater (Escola do Rock), que conduz o filme impecavelmente. O fim de tarde se passa em tempo real. As longas tomadas passeando por belas locações parisienses aliadas aos diálogos deliciosos do casal protagonista proporcionam um filme irresistível. À medida que vão se redescobrindo, Jesse e Celine vão percebendo o quanto ainda se amam.
Num belíssimo filme sobre o amor, que de forma alguma o idealiza, vê-se o que o sentimento está nas pequenas coisas, que não é perfeito. Celine e Jesse desmascaram um ao outro e acabam com as aparências de uma falsa felicidade, percebendo que ambos são infelizes no amor. Com a aproximação da despedida as dúvidas crescem, assim como a vontade de ficarem juntos, sem esquecer que a felicidade plena é balela.
Felizmente Antes do Pôr-do-sol não trai sua incrível verossimilhança e o desfecho – em aberto – é uma solução realista e que cabe ao casal. Quanto aos espectadores, é como Jesse fala sobre o livro que escreveu. O final vai depender das convicções de quem o vê e, certamente há quem pense que eles ficam juntos, como há os que pensam o contrário.
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